[Sinestésico] Um pouco de ar, por favor!¹

Por João Moreno

28/02/2016
Elabore e redija uma Crônica com o tema “Foi um sonho, minha gente”
De frente a minha ‘escrivaninha’, no meu ‘escritório’, pregado à parede, é possível ver um “aviso” – nele, numa mistura de letras garrafais, cursivas e de forma, lê-se algo como:


 “116 páginas por dia, 45 dias, “15” livros até 31 de março”.
Faz-se necessário uma breve recapitulação aqui: a ideia veio de um bem sucedido projeto literário, levado a cabo em cinquenta e oito dias, com o intuito de ler o maior número de páginas em um período que costumara ser preenchido pelo tédio: a tal da bendita-maldita férias acadêmicas. Dei um nome para o projeto anterior. Criei um edital. Convidei amigos para participar e compartilhei progressos em redes sociais como forma de estímulo.
E eu li. Li muito. Li pra caralho. Foram 4 206 páginas lidas de 4 478 páginas propostas originalmente. 15 leituras finalizadas de 12 leituras previamente estabelecidas. Deixei de comer. Deixei de sair. Em muitos dias, faltei à academia e ou deixei de dormir com a minha mulher porque faltavam apenas dez páginas ou então mais cinco linhas de uma resenha que ninguém verdadeiramente leria.
Atingira meus objetivos. Voltara a ler com afinco. Retomei o hábito da leitura, à leitura como hábito. A partir de então, estipulei metas literárias: dos clássicos para entender a realidade brasileira ao (utópico) projeto particular de ler três grandes romances da literatura mundial por mês.
Saramago, Amado, Aleksiévitch, Adichie, Gaspari e Russel tomaram parte no intento. Acontecimentos históricos foram catalogados – Revolução Russa, Ditadura Militar no Brasil, Escola de Frankfurt, França pré-revolucionária e o jornalismo brasileiro nos anos 90 – momentos apreendidos em forma de livros, para serem estudados, absorvidos, compreendidos e relacionados pelo meu intelecto.
Tudo estava indo muito bem, obrigado. Uma pilha com 15 volumosos livros se acumulara junto à vasilhas e utensílios domésticos. E é aí que voltamos ao início desse relato. Tragédia!
substantivo feminino. 1. teat na antiga Grécia, peça em verso, em que figuram personagens ilustres ou heroicos e a ação, elevada, nobre e própria para suscitar o terror e a piedade, termina por um acontecimento funesto. 2. teat peça, ger. em verso, cuja ação termina de ordinário por acontecimentos fatais.
O aviso, fixado na minha parede por meio de uma gambiarra com a tomada, olha-me agora fixamente. As palavras anteriores não podem ser mais lidas. Desdenhando de mim, ele afirma: “Fracassado!”
Calma, eu explico. Do retorno às aulas até agora, li pouco menos de 100 páginas. Sendo quase exato, tenho o patético número de quatro laudas e meia diárias. O mesmo livro perambula pela minha bolsa à mais ou menos 23 dias e eu não consigo sair da página 90 de Mary Shelley e seu Frankenstein. A rotina acordar-cinco-e-meia-da-manhã-faculdade-academia-casa tira-me totalmente o ânimo e tempo   para leitura. Somando-se a isso a bibliografia particular de cada disciplina.
(Por favor, alguém poderia avisar ao Prof. Signates que os textos do Prof. José Luiz Braga, apesar de muito bons – quando, com muito esforço, compreende-se o assunto – 'bugam' a mente? E que, até hoje, em dois períodos, eu não consegui entender o que há de especificamente comunicacional no jornalismo? Obrigado!)
Nesse ínterim, acrescentei um estágio-não-remunerado-obrigatório por mais quatro meses a minha rotina. Depois de um dia todo “lendo” textos e mais textos na tela do computador, a última coisa que se passa em minha mente é em abrir um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico.
A pilha de livros permanece inabalável atrás de mim. Aterradora, uma montanha inexorável de conhecimento (jaz agora) inalcançável. Sinto-me tão pequeno quanto o hobbit Frodo junto à perspectiva de alcançar às Fendas da Perdição. E perdido permaneço, diante de uma condição sem sinais de melhoras. Como diria Orwell: um pouco de ar, por favor! (E tempo para ler, também!) .
E ao escrever essas linhas, ilumina-me uma voz. Uma canção. As palavras de Vanessa da Mata não poderiam ser mais reais:


É só isso. Não tem mais jeito. Acabou, boa sorte. (…) E o que eu sinto. Não mudará. (…)  Irreais. Expectativas. Desleais.
Sim, sem dúvidas. Foi só um sonho, minha gente!
¹O título faz referência ao romance escrito por Orwell, em 1939.
Arquivo Pessoal. Reprodução. 

Encontre-me

Posts relacionados

5 comentários

  1. Eu quando maratono eu esqueço dentudo igual você citou kkkk e ainda mais quando o livro é maravilhosos. Adorei e achei o post bem divertido 👏👏👏👏


    www.sussurrandosonhos.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oiiii, que bom que vc curtiu o post!!!
      Obrigada pela visita!
      Beijão!

      Excluir
    2. Obrigado pela leitura e comentário. Fique à vontade e espero você no próximo post!

      Excluir
  2. OI, tudo bom?
    Gostei muito do post, eu nunca fiz maratona, mas tenho minhas metas, para ser sincera nunca contei minhas leituras e esse decidi fazer isso, como não faço ideia quanto eu leio estipulei 60 livros no anos que dá mais de um livro por semana, então preciso ler pelo menos 5 no mês, se não alcanço fico bem magoada.
    beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Opa, tudo bem por aí?

      Vou dar uma dica de quem fez uma vez e deu certo (pelo menos uma vez haha)

      Catalogue a quantidade de páginas que você terá que ler durante o ano. Use o Skoob e a meta de leitura da rede social. Com o total de páginas, divida pelo número de dias estipulados. Exemplo: quero ler 1000 páginas em 12 dias. 1000/12. Pronto. Force-se a ler a quantidade de páginas diárias.

      Ah, muito obrigado pela leitura e comentário. Aguardo uma futura visita. Grande Abraço!

      Excluir