[Sinestésico] Ânsia de Vômito

Por João Moreno

“Ôh, Pai! vim, onze e meia!”, diz meu novo treinador, via WhatsApp. Tenho a leve impressão de que ele não sabe o meu nome. “Pra quê ir pra academia tão tarde?”, ela retruca. Quando digo 'ela', refiro-me, sempre, a minha esposa. “Mas ele não pode te ‘treinar’ mais cedo?”, responde, ao ouvir a minha justificativa. Sinto um desdém em sua fala quando ela pronuncia a palavra “treinar”. Nitidamente, está 'puta', muito 'puta'. Ainda tentando me persuadir, diz. “Depois que você aprender o treino com ele, você não precisa ir mais nesse horário, né?”. Pergunto pra ela porque ela continua a pagar as aulas de dança contemporânea, já que ela sabe os exercícios e coreografia. O seu olhar diz “vai pra puta que te pariu”. Não vou para a puta que me pariu, vou para a cozinha, sorrindo de minha genialidade argumentativa. 
com vontade de vomitar”, reclamo. “Isso mesmo, vai treinar passando mal’. Ignoro-a. “O foda é que hoje é ‘Dia de Perna’”, continuo, como se ela se importasse com o grupo muscular que eu iria treinar em instantes. “O que é que tem”, pergunta por perguntar. “Que é normal eu querer vomitar depois, e não antes”, digo, respondendo o óbvio. Dou-lhe um beijo. “Volta logo, te esperando pra dormirmos”. De acordo com o Google Maps, são 1,1 quilômetros até a academia, e 8 minutos para chegar-se lá. Respirando lentamente para não colocar tudo para fora, levo três minutos ou 180 segundos.
A academia estava quase vazia. Além de mim e do professor fisiculturista – uma mistura de usuário de ‘trembolona’ ¹ e cocaína -, havia o gordinho retido, que treinava aos fundos, uma série de tríceps testa em bi-set com uma série de WhatsApp. Ainda, Bob, o bronco, uma espécie de fusão de centauro do Harry Potter com o Fauno do Guilherme del Toro, fazia rosca direta, roubando em cada repetição. Com uma voz meio troncha – uma fala ‘pra dentro’, a entonação subindo uma oitava, cenho franzido e o indicador em riste-, afirma. “Pra crescer tem que aplicar’, como se dono de uma verdade inquebrantável. “Hoje eu jogando nas pernas, Hydra Pharma, conhece?” Balanço afirmativamente a cabeça. “Produto bom é produto americano”, em sua verdade inalienável que aparece mais uma vez.
 “Apliquei aqui, aqui e aqui atrás”, continua, indicando pontos aleatórios em sua coxa esquerda. “Apliquei ontem, deu até um calombo, passa o dedo aqui”, manda. Ele, então, abaixa a calça na altura do joelho. Suas coxas são brancas, e lembram-me um palmito grande, enorme, de 60 centímetros. A ânsia de vômito volta. Sou obrigado a acariciar o quadríceps de um homem de 85 quilos. Ainda sinto o roçar de sua pele - suada e peluda – em meus dedos, sonho em amputá-los. “Sentiu?”, pergunta. Não sinto merda nenhuma, além da ânsia que bate mais forte. Confirmo positivamente com a cabeça. “Quanto tempo eu treino? Tem sete meses, desde fevereiro. Tá rindo do quê? O negócio é aplicar”, finaliza, ó, sábio do fisiculturismo, detentor de todo o conhecimento.
“Pai, semana que vem vamos começar a tomar ‘Dianabol’², três comprimidos antes do treino, dois depois, por dez dias”. Termino uma série do agachamento. Ofegante, afirmo que não queria tomar anabolizantes por agora, assumindo um possível fracasso, já que hoje agarro-me ao “é porque ainda sou ‘natural’” como minha única e última desculpa. “Pai, não tem colateral nenhum, é a mesma coisa que o anticoncepcional da sua mulher”, afirma ele, com uma convicção que deixaria qualquer professor universitário, ou vendedor, com inveja. “Além de aumentar o seu volume muscular, vai aumentar a sua força e resistência. Não, se você não tomar, não vai aguentar o ritmo do nosso treino”, completa, ao ver a minha cara descrente. “Além do Dianabol, vamos tomar Tribulus, conhece?”. Balanço a cabeça e confirmo que sim.  “Vai segurar a sua libido que vai cair quando interrompermos o uso [do Dianabol]. Como você vai comprar comigo, dividimos uma caixa. R$ 50 reais pra cada. Terminou aí? Agora vai pra abdutora, 4 séries de 10 [repetições]. Segura na excêntrica”, orienta, antes de ir para o computador escrever algum texto no Facebook incompreensível gramaticalmente.
Revezando na cadeira extensora, o professor começa. “Cara, eu ganhava dinheiro demais”. Ele e o Bob parecem ser amigos de longa-data. O assunto preferido de ambos? “Se for jogar ‘Stano’, tem que massagear o músculo. No chuveiro, joga água quente e aplica um creme”, informa o professor. Ele termina a série. De frente ao espelho, tira a camisa. Para um leigo no esporte, teria um físico invejável. Para um olhar mais atento, percebe-se que perdera muito peso em pouco tempo. Flácido e com estrias no ombro, comenta. “Agora vamo ficar monstro, né, não, Pai?”.
“Tô com vontade de vomitar”, digo, alertando o professor para um possível jorro de vômito no meio da academia. “É assim mesmo, todo mundo que treina comigo passa mal”. Penso em informar ao professor que foram os oito ovos que comera há exatas duas horas que insistem em querer sair pela minha boca, desisto da ideia e sorrio, sem graça. “Eu chegava a ganhar mais de 8 mil por mês”, começa ele, rápido em mudar de assunto. “Só vendia anabolizantes. Era só a ‘pacoteira’ de dinheiro no bolso, ia direto na BR pegar carregamentos que vinham de São Paulo”, mais uma série de extensora, zeramos o aparelho. “Bob, cê não vai acreditar. Eu passava metade pros meus estagiários venderem na academia, o restante eu guardava para aplicar nos alunos, era quase cem por cento de lucro”, diz. Ele fala alto, como se estivéssemos em uma multidão. Na academia, um sertanejo universitário tornava o ambienta um pouco mais inóspito, inabitável. “Aí eu tava com a mulher. Ela dava pros caras, eu pegava às piranhas. Ela começou a pegar no meu pé, colocou um policial na minha cola. Aí você sabe, né? Tive que dar uma freada. Antes ‘frango’ e livre, do que ‘monstro’ e preso, né, não, Pai?”. Termino a série. “Já foi quantas? Essa é a sua quarta, falta mais uma pra mim? Puta que o pariu”.
 “Pai, você vai comer vinte ovos por dia, dez antes do treino, dez depois, tranquilo? Um litro de leite e, semana que vem, vamo comprar um pote de cinco litros de sorvete, dividimos, vamos tomar um litro por dia com vitamina”, começa. ”Sabe patinho moído, você vai comprar um quilo, um quilo e duzentos gramas é melhor, Pai. Você vai fazer seis hambúrgueres de 400 gramas cada. Segunda, quarta e sexta, você come 2. Terça e quinta, dois sanduíches com quatro ovos cada. Se não fica muito caro, né? Final de semana o churrasco está liberado. Você vai entrar no churrasco. E não é carne magrinha, fresquinha, não. É pra comer a gordura, porra!”, termina. Desesperado, tento gravar essa quantidade absurda de informações. São quantos quilos de carne mesmo?
“Cara, mas você gosta de um espelho, hein?”, ele diz. Quando falo ‘ele’, refiro-me ao gordinho de cabelos cacheados que sempre vejo na academia por volta das 11 horas da noite. Com um Body Fat (BF) de 19-20%, em qualquer outro local seria chamado de ‘forte’, aqui, entretanto, é considerado um gordo fracassado mesmo. “Bodybuilding é isso”, respondo, na defensiva, apontando o dedo para a cabeça, como se fosse uma coisa óbvia. Não era. Ele olha para mim, vira o pescoço para um lado, para o outro. “Fisiculturismo, respondo”, A iluminação não é muito boa. Mesmo assim, vou para frente do espelho. Dois, na verdade. Executo uma pose ‘side chest, que finalmente começo a aprender.

O competidor pode escolher o lado para posar a fim de mostrar o melhor braço. Ele ficará em pé, com seu lado direito ou esquerdo voltado para os árbitros, e flexionará o braço mais próximo dos árbitros, em um ângulo de posição direita, com punho cerrado e com a outra mão segurando o punho. A perna mais próxima dos árbitros será flexionada no joelho e repousará sobre os dedos do pé. O competidor, através de uma pressão para cima do braço que está flexionado, e contrairá o bíceps - o máximo possível -. Ele também irá contrair os músculos das coxas, em particular o grupo bíceps femoral e aplicará uma pressão para baixo nos dedos do pé, mostrando os músculos da panturrilha contraídos. (TREINAMENTO RESISTIDO, 201?).

“Então essas poses ajudam a melhorar o treino?”, “Velho, sim. Mas não de maneira direta”. O gordinho levava à sério a máxima do ‘marombeiro-burro’. “Velho, esse é um esporte de ilusão. Primeiro, você não levanta peso, você resiste à ele. Está vendo essa pose aqui?”, pergunto, fazendo uma expansão de dorsais de frente, contraindo bíceps, tríceps, porções medial e anterior do deltoide. Seguro à respiração e contraio, também, o abdômen; às mãos, em arco na cintura, darão a impressão de um afunilamento do quadril. Os quadríceps estão semi flexionados, assim como a panturrilha direita, contraída.
           “Não é apenas uma pose engraçada. Cada parte do meu corpo está voluntariamente contraída em um melhor ângulo que favoreça uma apresentação diante de um possível julgamento ou campeonato. Toda vez que pratico essas poses, melhoro a consciência corporal. Conexão mente-músculo, já ouviu falar?”, pergunto. Ele continua aturdido. “Quando você faz rosca-direta, você não usa ombro, você não usa antebraço. Você usa especificamente essa porção do bíceps, durante aquele movimento”, digo, apontando para o pico do meu bíceps direito, agora contraído. Diante do espelho, graças a um pump violento, uma contração do tríceps, uma rotação de tronco, e a aproximação do meu braço direito junto à dorsal, ‘ganho’ de 3 a 4 centímetros de braço. “Fisiculturismo é um esporte de ilusão”, repito.
 “Peraí, vou te dar uma carona”, diz o professor. É meia noite e quarenta e amanhã tenho que acordar pouco antes das seis, para a aula de Livro-Reportagem. Lembro, então, da fala de um amigo, que ao ver a foto do professor-bombado-cheirado, anunciara. “De duas, uma: ou ele é um Go Go Boy, ou faz programa. Com homens”, enfatiza. Entro no veículo pensando nisso, um Honda Civic prateado, meio rebaixado, com bancos de couro. O seu interior recende a cheiro de lavanda e cigarros de puta. O banco do passageiro está totalmente reclinado. Imagino quantas mulheres ele já não comera ali. Ele entra. Liga o som. Parece absurdamente grande e forte ao meu lado. A voz do meu amigo toma conta de meus pensamentos. “Cara, ele vai tentar te comer como forma de pagamento”. Fico pensando o quão vulnerável estou, sem nenhuma arma branca e com um cara que tem o triplo do meu tamanho. Já me conformo com o assédio, e penso em uma maneira de matá-lo no outro dia, como forma de retaliação. Nada acontece. “Pai”, começa. E, sim, confirmo a hipótese: o professor ainda não sabe o meu nome, mesmo treinando juntos há duas semanas. Paciência.
“Depois do segundo ciclo de ‘Dianabol’, vamos aplicar ‘Deposteron’, segunda e quinta, segunda e quinta. É uma versão sintética da testosterona. Até outubro vamos estar ‘monstrão’, bota fé?”. Digo pra virar à esquerda. “Sei, é o meu caminho mesmo. Até lá, se quiser subir em um campeonato, te ajudo com a preparação. Vamos subir de peso, comer pra caralho, pra quando secarmos, um mês antes, termos o que cortar”. Meu coração dispara ao ouvir ele descrever, de forma casual, a possibilidade de um sonho tornar-se realidade. “Fisiculturismo é isso, Pai. Se fosse fácil, todo mundo seria ‘bombado’, blá, blá, blá’. Às pessoas falam que é sacrifício, e é mesmo. É levar o seu corpo ao extremo, mas a vida é assim, se quiser alcançar seus objetivos, temos que correr atrás”. Interrompo-o com seu papo motivacional, mas chegara à porta de casa. O medo da possibilidade de passar da minha casa e mudar, então, de ideia em relação há um possível abuso é mais forte. “Até amanhã, fica com Deus. Pai, agora é comer pra caralho e descansar, hein?”. 
Abro a porta de casa. O cheiro de carne cozida atinge, em cheio, minhas narinas. Meu estômago ‘revira’ igual gelatina. Atravesso a cozinha-escritório e entro no quarto. Adianto-me junto a minha esposa. Dou-lhe um beijo na testa. Pergunto se ainda está acordada. Ela me responde com um olhar assassino. Deito ao seu lado, cheirando a ranço e suor. “Não posso vomitar, não posso vomitar”, digo, em um mantra mental para mim mesmo. Pego a toalha e dirijo-me ao banheiro. Minhas pernas tremem a cada passo. No chuveiro, a água quente cai sobre minhas costas, fazendo com que o enjoo piore. Minha pressão cai. Sento no vaso sanitário. Lembro, então, das pernas do Bob, o Bronco, e da sensação dos meus dedos roçando em sua coxa esquerda. O estômago não resiste. -entrego-me, então, e com vontade, aos desprazeres daquela ânsia de vômito agridoce.

Post scriptum

O fisiculturista Dallas MacCaver, de 26 anos, faleceu na semana retrasada, terça-feira (22). De acordo com o site de entretenimento TMZ, a morte foi causada “após aparentemente [o atleta] se engasgar com comida na sua casa na Florida”. 
Um dia antes ao fatídico dia, o atleta postara em suas redes sociais um de seus treinos preparatórios para o próximo Mr. Olympia, o maior campeonato de fisiculturismo profissional do mundo, que acontece em setembro. Dallas tinha apenas 26 anos e era considerado uma das promessas do esporte. No último Mr. Olympia, conseguiu a surpreendente ‘nona posição’. Em sua preparação para este ano, MacCaver chegou a bater os também surpreendentes 150 quilos. O atleta começou a sua carreira no futebol americano, transferindo-se para o fisiculturismo devido à aptidão ao esporte com o seu porte físico.
As palavras do atual campeão do esporte, Phil Heath, ilustra o sentimento que fica após a morte do jovem e como Dallas, atleta de imenso potencial, era querido.  “Dallas foi um maravilhoso rapaz que trouxe muita luz para um esporte que, às vezes, esteva encoberto em escuridão. Olhe para este sorriso! Quero dizer, olhe para suas fotos e você verá um sorriso iluminando sua face em amor ao esporte”, afirmou, em postagem na tarde da terça-feira cinzenta, o dia do adeus.


Tom Platz, conhecido, também, como 'Quadzilla', ainda na década de 80, trouxe novos parâmetros ao esporte com o seu massivo desenvolvimento nos membros inferiores. Para este que vos escreve, foi e é o maior Fisiculturista de todos os tempos. Imagens de Internet, Reprodução.
Notas
 1. Trembolona. A trembolona é um esteroide anabolizante extremamente potente e contra indicado ao uso humano. A trembolona possui cinco vezes a força androgênica e anabólica da testosterona. Enquanto a classificação da testosterona fica em 100/100, o Trembolona tem sua classificação de 500/500, e faz com que o atleta ganhe massa muscular sem reter líquidos. Ela é uma variação da Nandrolona e ambos pertencem a uma classe / categoria de esteroides anabolizantes conhecidos como 19-nor compostos, ou 19-nors (abreviação de 19-nortestosterona). Os 19-nor esteroides anabólicos são chamados assim, porque eles não têm o carbono 19 na sua estrutura. Este carbono existe na testosterona e em todos os outros esteroides anabolizantes.Causa o aumento da pressão arterial, de prolactina, atrofia testicular, etc.

2. Dianabol. A Dianabol é um esteróide anabolizante originalmente desenvolvido por John Ziegler e lançado nos Estados Unidos em 1956 pela CIBA. Ela era utilizada como suplemento para o crescimento muscular por fisiculturistas, até que foi banida pela FDA.


3. Deposteron. O deposteron é um medicamento injetável cuja finalidade principal é tratar a insuficiência testicular, uma deficiência que impede o homem de produzir espermatozoides, pois ele auxilia no tratamento de infertilidade. Este anabolizante é composto por apenas um tipo de testosterona: o cipionato.

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