Resenha: A Inconfundível Escrita de Murakami #OutubroRosa #LivroRosa

Por João Moreno

“(…) Mas acho que, se for pra escrever, melhor que seja, no mínimo, alguma coisa edificante pra você mesmo. Senão não faz sentido. Não é?” (MURAKAMI, 2016, p. 103).

 Quando, lendo um livro de Murakami, perguntam-me: “sobre o que se trata esse livro?”, demoro muito à responder. O pior: depois de muito pensar, à resposta que chega aos meus ouvidos não agrada-me em nada. Para mim, desde Minha Querida Sputinik, meu primeiro livro, sempre foi difícil caracterizar a temática de suas obras. Pergunto-me, seria essa uma exclusividade minha?
Haruki Murakami, parte da atual leva de escritores contemporâneos da literatura japonesa, é dono de uma “voz particular, única na língua japonesa”, segundo o próprio autor. Para o livro 501 Grandes Escritores, trata-se de uma voz de difícil caracterização, que define-se em sua “prosa coloquial, com pendor para o bizarro (…) e tendências diversas quanto ao Realismo Mágico e Ciberpunk”. (PATRICK, 2009, p. 608).
“Naquela época, eu acreditava sinceramente que, convertendo tudo em números desse jeito, conseguiria comunicar alguma coisa às outras pessoas. E que ter algo pra comunicar seria uma prova definitiva da minha existência”. (MURAKAMI, 2016, p. 85). Ainda sobre esse estilo de escrita (que bebe no surrealismo), talvez às obras se pautem realmente no absurdo que mesclam-se às indissociáveis metáforas. Metáforas essas, nas palavras do próprio Murakami, dotada de ritmo próprio e construídas em características únicas.

“Às vezes o dia de ontem parecia o ano anterior, ou o ano anterior se confundia com o dia de ontem. Nas horas mais graves, o ano seguinte se confundia com o dia anterior (…) Por muitos meses, por muitos anos, permaneci assim, sentado sozinho no fundo de uma piscina profunda. A água morna, a luz suave, o silêncio. O silêncio… (MURAKAMI, 2016, p..154).

Ainda sobre esse estilo (e, aqui, a repetição se faz necessária), Stephen Yeager, Doutor em Literatura Inglesa, complementa, “fica sempre a impressão de que o que está ausente não foi perdido – na verdade, nunca se apresentou”.

“(…) traçava novamente seu caminho, retornado ao seu próprio mundo. Nesse caminho de volta, uma tristeza nebulosa sempre invadia seu peito. Aquele mundo que esperava seu retorno era vasto demais, poderoso demais, e ali ele não encontrava nenhum lugar para se refugiar.” (MURAKAMI, 2016, p. 170).

Ouça a Canção do Vento e Pinball, 1973, duas novelas que compõem os primeiros escritos de Murakami, duas narrativas intercaladas que se confundem e nos confundem. Talvez, nessas duas obras, não haja uma temática protagonista. O cotidiano assume tons, a incerteza do futuro dita ritmos, a nostalgia, principalmente ela, assume formas.

“Um belo dia nosso coração se prende em alguma coisa. (…) Por dois ou três dias fica perambulando pelo nosso coração, depois volta pra escuridão de onde surgiu. Há poços profundos escavados nos nossos peitos. Pássaros cruzam o ar sobre eles”. (MURAKAMI, 2016, p. 210).

E a solidão permanece como marca indelével de suas linhas. “Você não se sente sozinho, mesmo? – perguntou ela, mais uma vez, no fim. Enquanto eu procurava uma boa resposta, o trem chegou”. (MURAKAMI, 2016, p. 209). E tão difícil quanto caracterizar as obras de Murakami, comentá-las tornou-se atitude ingrata. Escrever sobre o que foi lido é como tentar agarrar com mãos enluvadas a brisa que sopra num longínquo verão. Ou tentar descrever as sensações trazidas pelo acariciar do vento numa tarde distante.
A sensação que fica é a do toque das palavras. Da certeza que ali, em alguns (muitos) momentos, sensações foram despertas. E, na tentativa de atentar-se para estas, sobra-me, apenas, um vazio. O escape das palavras na memória. Palavras, seus significantes e significados. Fica, também, à sensação de enxergar-me em seus personagens, suas contradições e dilemas. “(…) Diversos perfumes passaram suavemente pelo seu nariz e desapareceram. Foram muitos sonhos, muitas tristezas, muitas promessas. No fim, tudo desaparece”. (MURAKAMI, 2016, p. 189).
E, não importa quão marcante tenham sido à passagem de pessoas em nossas vidas, no final, ela, a vida, sempre segue. E como diria o próprio Murakami, na primeira linha de Ouça a canção do Vento. “Não existe nenhum texto perfeito. Assim como não existe desespero perfeito”. (MURAKAMI, 2016, p. 21). É a sensação que fica ao tentar narrar o inenarrável, transcrever o ‘intranscrevível”. Sentimentos esses, para mim, ligados de maneira inconfundível às obras de Murakami. 
“Vendo de longe (…) qualquer coisa fica bonita”. (MURAKAMI, 2016, p. 208).

Referências

MURAKAMI, Haruki. Ouça a canção do Vento; Pinbal, 1973, 1ª ed. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016. 
PATRICK, Julian (Ed.). 501 grandes escritores. Rio de Janeiro: Sextante, 2009. 

Trinta e sete minutos para tirar essa foto. Percebe-se que nunca trabalharei com Fotojornalismo. Arquivo Pessoal. 

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3 comentários

  1. Nossa, sua resenha me deu até vontade de chorar! Tá afim de fazer meus trabalhos de faculdade não?! tá ótema!!! Parabéns!
    Nunca li o livro, mas já o vi algumas vezes.
    Parabéns novamente pela resenha.

    Beijinhos!!

    #Ana Souza
    https://literakaos.wordpress.com

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    Respostas
    1. Ana Souza, tudo bem por aí? Meu contato com o Murakami ainda é superficial, mas tenho a sensação de que ele já é um dos meus autores preferidos de todos os tempos. E, realmente, é muito difícil explicar o que são suas obras, da mesma maneira que tentar explicar o que é Cem Anos de Solidão, por exemplo.

      Sobre 'assessoria acadêmica', eu sei que foi uma piada, mas se estiver precisando: sacocheioassessoriaacademica@outlook.com - É sério, temos até uma página no Facebook. Dê uma olhadinha, conte para sua família e seus amigos universitários. Agora vou lá, tenho um TCC de uma pessoa para 'assessorar'.

      P.S.: E finalmente um comentário! O feedback de vocês, leitores, é muito bacana. Só resta torcer para que venha mais vezes, se quiser, aos domingos, onde escrevo, de vez em quando, (estou em falta à três semanas, desculpe-me, Três Leitoras!), verdades absolutas de lugar nenhum.

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  2. ola, tudo bem?
    Ainda não tinha ouvido falar de Murakami. Achei muito curioso o fato de que ele tem uma escrita única. Que não encaixa em algo específico, mas tem um pouco aqui e acolá.
    E, não sei qual elogio: os quotes ou tua resenha! Tão poéticamente escrita! Amei! Parabéns! Peninha que o livro não é meu tipo!
    bjs

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